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Carta para uma mulher desconhecida.


*Ilustração Paige Mehrer


Não percebi quando você chegou ao bar no domingo. Eu estava envolvida por uma dúzia de assuntos em uma eloquência ébria, frenética, e o meu entorno se tornou desinteressante. Mas, quando sentei naquela cadeira de praia você brotou no meu campo de visão. Você usava um vestido branco, com bordados azuis na barra. Sua pele era clara, sobrancelhas bem feitas e um batom que, de tão discreto, parecia querer ser imperceptível.


Percebi que você era tímida. Ou estava, de alguma forma, desconcertada. Os braços cruzados ou agarrados à bolsa se soltavam apenas para ajeitar o cabelo atrás das orelhas. Um cabelo cacheado castanho, muito mais vistoso que este trava-língua, diga-se de passagem.


Quando descobri que um novo acesso ao banheiro feminino tinha sido liberado, logo te avisei para que não precisasse passar em frente ao palco do show o que, na minha opinião, é sempre demasiadamente constrangedor e indelicado. Como retribuição pelo direcionamento, recebi um sorriso largo, acompanhado de um leve toque no braço e um quase inaudível “obrigada”.


A festa seguia. Eu dançava tão empolgada e leve como há muito não fazia. A realidade às vezes finca nossos pés no chão de tal forma que, qualquer balanço além estremece as estruturas. Na ida para o banheiro, vi que você estava próxima à pista de dança improvisada, mas não entrava nela. Estava estampada em seu rosto a vontade de dançar, de jogar seu corpo naquele fervo e extravasar, assim como a maioria das pessoas estava fazendo. Então, na volta do banheiro, parei na sua frente e comecei a dançar contigo. Me comportei como um convite irrecusável e deu certo: você sorriu largo e a gente dançou por alguns bons minutos.


Não sei o seu nome, a sua história e ou até mesmo como acabou a sua noite. Eu só queria que você entendesse que eu não te observei, mas sim, te notei carinhosamente, por uma empatia entre mulheres, pois é isso que você é: uma mulher. Desde sempre e para sempre. Não deixem que digam o contrário ou que te reprimam o corpo-território.


Um beijo pra você, querida – e linda – desconhecida mulher.



*Daniele Britto Advogada e Jornalista Mãe, feminista, antirracista e aliada na luta contra a homotransfobia Pesquisadora no grupo Corpo-território Decolonial (Uefs) Mestranda PPGE/Uefs



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