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Como mudar os rumos da política em 2022?



Temos o estranho hábito de compartimentalizar a vida, como se ela fosse um grande armário de Tupperware: tudo separadinho por cor, tamanho, função, etc., como se, desta forma, pudéssemos controlar e compreender tudo. Sinto informar, mas as coisas não funcionam bem assim. Não existe nenhuma pauta existencial que “corra solta”, sem nenhuma conexão com o nosso corpo e com o mundo.


Vejo algumas pessoas se esforçando para sustentar alguns discursos em defesa do indefensável que eu não sei se sinto raiva ou pena. Não há como você, por exemplo, ser veementemente contra a política de cotas raciais no acesso à graduação ou na pós-graduação senão por um viés essencialmente racista. Pode analisar, buscar a origem do seu discurso. O racismo será a base, não tenho dúvidas.


Eu poderia apresentar aqui outros tantos exemplos, mas acho que este único foi o suficiente para se compreender a dimensão das coisas. Quando vejo alguém jovem, que ocupa as cadeiras da academia e que trabalha diretamente com a prestação de serviços insistindo em apoiar a reeleição do Bolsonaro, eu não entendo que isso é ingenuidade ou mera estupidez, eu tenho plena convicção de que se trata de mau-caratismo com notas de hipocrisia. É identificação, pacto, fechamento e tudo mais que indique cumplicidade com o que há de pior na humanidade.


Fantasiar a família de verde e amarelo e ir para as ruas apoiar o atual presidente em atos públicos é quase autoexplicativo, só não vê quem não quer. E é por isso que eu insisto: com estes e estas, não vale a pena perder tempo argumentando, buscar qualquer diálogo. Precisamos investir e nos voltar para aqueles e aquelas que se dizem arrependidos ou que insistem que apertaram o 17 porquê “queriam mudança”. Com este público vale a pena engolir seco o desaforo, dialogar e tirar esse pessoal do limbo eleitoral.


Inclusive, no meu discurso persuasivo aponto as diversas falhas da esquerda, sejam elas no campo político ou ideológico. Fujo de qualquer idolatria irracional e me mostro sempre capaz de compreender o que intitulam de “vontade de mudança”, mesmo sem entender muito bem o que isso representa em aspectos práticos. É assim que a colcha de retalhos deve ser costurada. Com paciência, ponderação, escuta e muito, muito diálogo. Talvez, ao final de 2022 você precise fazer uma phmetria esofágica, de tanto que seu estômago estará comprometido. Ou talvez a gente se encontre entre uma sessão de terapia ou outra, já que a saúde mental pode dar aquela piorada.


O que não podemos deixar de fazer é nos movimentarmos na articulação destes diálogos e construções. É o que pode ser feito, é o antídoto contra as fake news e o sensacionalismo. É preciso destrinchar a realidade de forma lúcida, por mais que a vontade seja, em alguns momentos, de dar as costas e sair correndo. Não menospreze a mobilização popular. Seu poder é imenso e sua pulverização, essencial.


O que eu insisto, é: não perca tempo com os “bolsonaristas convictos”. Estes são comparsas e não apenas eleitores. Desses e dessas, eu recomendo distância.






*Daniele Britto

Advogada e Jornalista

Mãe, feminista, antirracista e aliada na luta contra a homotransfobia

Pesquisadora no grupo Corpo-território Decolonial (Uefs)

Mestranda PPGE/Uefs