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O que temos pra hoje?

Eu deveria ter escrito este texto ontem, domingo. Este era o acordo comigo mesma, mas não deu. E como diz minha terapeuta, “tudo bem”.

Já estou aqui há uns 20 minutos pensando sobre o que falar e o grande problema é a extensa pauta que se forma na minha cabeça e percorre todo o meu corpo. Excessivamente pessoal seria o meu texto de hoje se eu partisse de tão dentro de mim? Posso provar que não. Falarei sobre mim, sobre ele, sobre nós e até sobre você.

Hoje, dia 30 de agosto de 2021 é o dia da minha banca de qualificação do mestrado. É um momento de grande relevância no processo da escrita e pesquisa, pois nos deparamos com outras opiniões e olhares que podem transformar todo o rumo do que já foi produzido. Ou, na melhor das hipóteses, ratificar a tinta gasta com um belo incentivo que deixa o coração da pesquisadora quentinho.

Porém, há pouco, recebi a notícia que um dos meus avaliadores não poderá participar do rito da qualificação e fornecerá parecer posterior avaliando minha produção. E, deixando de lado toda a minha ansiedade com este momento – coisas de discente -, não me resta nada além de, mais uma vez, me solidarizar com o Dr. Wallace de Moraes e o enfrentamento corajoso do que explicitamente identificamos como racismo institucional ocorrido na última semana na UFRJ.

É adoecedor manter-se consciente de que o racismo e todas as suas nanoestruturas seguem se perpetuando dentro das instituições de ensino superior e pesquisa. Concluir que este combate efetivo mostra-se ainda incipiente diante das cadeiras e titularidades guardadas à sete chaves pela branquitude gera tantas incertezas e um cansaço fora de série. Como agir diante da falta de pudor de um docente ao dizer que um homem negro não pode assumir determinada função por este “constantemente se vitimizar por ser negro” e ter “desequilíbrios emocionais”? Raiva (muita) e cansaço é o que me vêm.

Descrevo aqui que um pesquisador e intelectual negro como o professor Wallace não conseguiu se debruçar sobre o meu trabalho – que fala exatamente sobre o racismo – por estar mentalmente exausto e tentando manter-se aguerrido contra essa violência recorrente que tenta expulsar todos os dias, nas escolas e instituições de ensino superior e pesquisa, estes corpos insubmissos que se recusam a ocupar os lugares impostos no bonde das subalternidades.

Esse fato ocorrido em uma reunião remota com finalidade específica reverbera além dos muros da UFRJ. Esta violência tem pernas e asas e percorre toda a nossa construção sociohistórica e realidade. Estamos costurados por linhas finíssimas, quase invisíveis, mas de alta resistência e condutibilidade. O que ocorreu lá chegou aqui e está chegando em você. O grande problema é que a origem de tudo isso parece uma fonte inesgotável de dor e injustiça.

Não era bem esse o texto que queria para esta segunda, mas é este que tenho pra hoje. É o que me atravessa e me move neste dia de sol.

A minha sorte é estar perto do mar.





*Daniele Britto

Advogada e Jornalista

Mãe, feminista, antirracista e aliada na luta contra a homotransfobia

Pesquisadora no grupo Corpo-território Decolonial (Uefs)

Mestranda PPGE/Uefs

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