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Polícia que morre, político que corre

Confusa. Quem nunca se sentiu completamente imersa em um mar de pensamentos e informações que, ao primeiro contato te paralisam e tornam-se intensa neblina diante dos seus olhos? É assim que me sinto neste exato momento e, por este motivo, este texto vai ao ar um pouco mais tarde do que o normal.


Nos ensinam as orientações da direção defensiva que, em caso de neblina densa, devemos utilizar os faróis baixos e seguir lentamente pela via, sempre com atenção e cuidado. Parar, não se deve jamais. E é um pouco isso que quero fazer agora. Seguir, mesmo com a visão comprometida, porquê permanecer parada é risco na metáfora e na vida real.


Dois fatos em especial – e suas devidas repercussões – são, por assim dizer, os motivos do que chamo de confusão: os atos convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua pelo impeachment do presidente golpista e também a morte do tenente da Rondesp, Mateus Marinho também ocorrida no último domingo (12).


Sobre o primeiro fato, reputo ser ridícula as atitudes desses grupos políticos que forjam sua identidade pela conveniência política através de discursos sem nexo, tentando um populismo esdrúxulo, que não convence nem meu filho de quatro anos. Apoiaram o golpe desde o começo, sempre compactuaram com discursos de ódio, propagaram fake news e agora querem fazer um rebranding se eximindo de toda a responsabilidade pelo caos e instabilidades que vivemos desde 2018? Não, não vai ser fácil assim, moleques.


Tenho plena consciência de que as instituições existem para o controle dos corpos, com seu poder disciplinar tão já discutido por Focault, para citar uma referência mais conhecida. Para o francês, a disciplina por si só é um poder e não a instituição em si. Na obra Vigiar e Punir, Focault trata das práticas de aumento da produtividade, concomitantes com a criação de docilidade política. Não há como compartimentar a sociedade e suas estruturas. Precisamos com urgência enxergar o todo de forma ampla e interligada. E é neste contexto que gostaria de trazer o segundo fato, que é a morte do tenente Mateus.


Não compreender o papel das instituições e as ingerências do poder disciplinar polariza equivocadamente a guerra entre “polícia e bandido” e tira do Estado a grande responsabilidade por esta e tantas outras mortes. Não são “ossos do ofício” e muito menos fatalidade. A necropolítica precisa ser compreendida em dimensões maiores e a tão supervalorizada guerra às drogas, definitivamente, superada. Quantos mais – policiais e, principalmente, inocentes, deverão tombar para que se enxergue quais são, de fato, os problemas?


Vivemos dias difíceis mas, se seguirmos com a opção de enxergar a realidade apenas pelo prisma da nossa conveniência ou de forma acrítica, delegando a terceiros toda nossa responsabilidade, eu não encontro palavras para descrever o que está por vir.


Não me sinto mais confusa. O que me resta agora é medo, apesar de ser um corpo nada dócil.




*Daniele Britto Advogada e Jornalista Mãe, feminista, antirracista e aliada na luta contra a homotransfobia Pesquisadora no grupo Corpo-território Decolonial (Uefs) Mestranda PPGE/Uefs